Do jardim de recreio para o jardim botânico -Representação do Horto Botânico de Pádua (1545)

Do jardim de recreio para o jardim botânico – Representação do Horto Botânico de Pádua (1545)

 

 

Do jardim de recreio para o jardim botânico

A longa trajetória dos jardins botânicos atravessa o mundo Oriental, ainda na Antiguidade, relacionada à produção de drogas medicinais e a aclimatação de especiarias. O intenso contato político e comercia lentre os povos, garantiram o intercâmbio também de plantas e sementes. E o aperfeiçoamento da técnica construtiva dos espaços verdes.

A constituição de herbários e o surgimento da botânica, enquanto disciplina nas universidades européias, iniciaram um longo processo de coleta, estudo e catalogação das plantas medicinais. Entre os séculos XV e XVI, importantes obras de botânica foram publicadas.

As Universidadesde Pisa (em 1544) e de Pádua (em 1545), na Itália, estabeleceram os primeiros jardins botânicos do continente europeu. Os professores utilizavam os jardins para a produção de medicamentos, por isso, foram denominados hortus medicus e hortus academicus, auxiliando as disciplinas médicas e fornecendo novos medicamentos para as povoações. Posteriormente, a Universida de holandesa de Leiden (1590) criou um hortus academicus, enquanto o rei francês Henrique IV encarregou um professor da faculdade de medicina de Montpellier a criar o jardim real, tendo o Horto de Pádua como referência (1593).

Do hortus medicuspara o hortus aromata(jardim das especiarias): o domínio dos impérios coloniais

1544 –Pisa1679 –Berlim
1544 –Pádua e FlorençaSéculo XVIII
1568 –Bolonha
1590 –Leiden1768 –Ajuda (Lisboa)
1593 –Montpellier e Heidelberg
1600 –Copenhagen
1621 –Oxford América Portuguesa
1635 –Paris
1637 –Recife
1655 –Upsala
1772 –Coimbra
1798 –Belém
1799 –Vila Rica
1808 –Rio de Janeiro
1811 –Olinda

Jardim Botânicoda Ajuda (1768)

Do jardim de recreio para o jardim botânico - Jardim Botânico da Ajuda (1768)

Do jardim de recreio para o jardim botânico – Jardim Botânico da Ajuda (1768)

Jardim Botânico de Coimbra(1772)

 

 

Do jardim de recreio para o jardim botânico - Jardim Botânico de Coimbra (1772)

Do jardim de recreio para o jardim botânico – Jardim Botânico de Coimbra (1772)

A rede de informações: Vila Rica na rede dos jardins botânicos do Império Português

Do jardim de recreio para o jardim botânico - Vila Rica na rede dos jardins

Do jardim de recreio para o jardim botânico – Vila Rica na rede dos jardins

Do jardim de recreio para o jardim botânico - Vila Rica na rede dos jardins

Do jardim de recreio para o jardim botânico – Vila Rica na rede dos jardins

O primeiro diretor do Horto Botânico de Ouro Preto: o padre Dr. Joaquim Veloso de Miranda

Joaquim Veloso de Miranda teve intensa vida científica em Minas Gerais após 1779, quando regressa ao Brasil. Graduado e doutorado em Filosofia Natural pela Universidade de Coimbra, foi discípulo do professor italiano Domingos Vandelli, figura principal na política de criação de jardins botânicos e na reformulação da universidade em Portugal no final do século XVIII. Foi Joaquim Veloso que substituiu o mestre nas disciplinas de História Natural e Química em Coimbra.

Posteriormente, embarcaparao Brasil, tendo instalado residência no distrito do Inficionado (pertencente à Mariana) e VilaRica. Tendo o patrocínio do governo Português, dedicou-se de 1780 até 1799 a múltiplas pesquisas científicas, especial mente nas áreas de botânica, química e mineralogia.

O doutor Joaquim Veloso de Miranda empreendeu sucessivas expedições por extensa parcela do território mineiro a recolher plantas, sementes, animais e artefatos indígenas, enviados para o Jardim Botânico da Ajuda e Real Gabinete e Museu de História Natural em Lisboa e para o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, dirigidos pelo seu antigo mestre Domingos Vandelli. Foi sua coleta e estudo de plantas de Minas Gerais utilizada por Domingos Vandelli ao publicar a obra Florae lusitanicae ET brasiliensis specimen(1788), baseada no sistema de classificação de Lineu para o mundo natural.

Florae lusitanicae et brasiliensis specimen (1788).

Do jardim de recreio para o jardim botânico - Florae lusitanicae et brasiliensis specimen (1788)

Do jardim de recreio para o jardim botânico – Florae lusitanicae et brasiliensis specimen (1788)

 

O hábil naturalista Dr. Joaquim Veloso de Miranda

 

Quase vinte anos passados de sua atuação científica em Minas Gerais, patrocinadas pelo governo Português, o naturalista Joaquim Veloso de Miranda propôs o seu nome para o lugar de secretário de governo da capitania de Minas Gerais. Justificava sua intenção, como medida de economia da Coroa, pois manteria as pesquisas científicas apenas como ordenado de secretário da capitania.

Em janeiro de 1799, tomou posse oficialmente do cargo permanecendo nele até abril de 1805. Este é um período singular para a história do Horto Botânico de VilaRica. Foi o naturalista e recém-empossado secretário da capitania de Minas Gerais, o doutor Joaquim Veloso de Miranda, o primeiro diretor do Horto de Vila Rica, criado logo após a sua posse na secretaria por ordem enviada do governo Português. Foi o próprio Joaquim Veloso, como dissemos, que indicou o local mais apropriado para a instalação da nova instituição, nas proximidades da sua casa e quintal à rua de São José.

Em 1808, com a transferência da Corte para o Rio de Janeiro, a sua participação continuou ativa até os primeiros anos da década de 1810. Nos últimos anos de vida, encontrava-se em sua fazenda de Mau Cabelo, na freguesia de Ouro Branco, dedicado principalmente na produção de tecidos de qualidade, a produzir a própria tintura utilizada na produção têxtil.

Entre os objetos encontrados em sua fazenda, o microscópio, mapas, doze quadros com estampas, materiais utilizados em expedições, uma viola, objetos de laboratório químico, duas máquinas, termômetro, teares, 48 carneiros, além de muitos livros de botânica, química e mineralogia. Faleceu no mesmo ano do seu antigo mestre Domingos Vandelli, em1816.

 Planta do Horto Botânico de Vila Rica, 1799.

Do jardim de recreio para o jardim botânico - Planta do Horto Botânico de Vila Rica, 1799

Do jardim de recreio para o jardim botânico – Planta do Horto Botânico de Vila Rica, 1799

 

A criação do Horto de Vila Rica: o segundo jardim botânico da América Portuguesa

 

Foi o hábil e conhecido naturalista Joaquim Veloso de Miranda que idealizou o espaço, que teve sua planta desenhada por Manuel Ribeiro Guimarães no mesmo ano de sua criação, em 1799. Do lado oposto da Casa dos Contos, apresentava-se o Horto Botânico de Vila Rica de Ouro Preto com seus jardins ordenados e simétricos, tendo-se utilizado a técnica dos patamares para a feitura dos canteiros de plantas.

A recém-criada instituição contava com casa de vivenda (que com algum a modificação podemos observar ainda hoje, sobra do no qual se encontra atualmente um restaurante e algumas lojas), terraço, pátio, sete patamares com canteiros de plantas desenhados de forma simétrica e ordenada, ligados por sete escadas. Por fim, após os canteiros geométricos encontramos a área da mata, dividida em três partes, a conter árvores e plantas de diferentes tamanhos e espécies.

Estava, assim, instituído o segundo horto botânico da América Portuguesa, depois do Jardim Botânico de Belém e anterior aos de São Paulo, Olinda, Salvador e o da Lagoa Rodrigo de Freitas(atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro).

A criação do Jardim Botânico de Vila Rica encontrava-se inserida num contexto mais amplo do final do século XVIII, dentro das políticas do reformismo ilustrado português. Simultaneamente foram incentivadas a estabelecerem na capitania de Minas Gerais uma fábrica de ferro, a produção de salitre e a descoberta de outros minerais ou de novas minas de ouro. Mantinha-se a política de incentivo à exploração dos recursos minerais, natural numa capitania com tantas jazidas. No entanto, a criação do horto botânico sinalizava a tentativa de animar as produções agrícolas nas localidades mineiras.

O Horto Botânico de Vila Rica parece ter persistido enquanto durou tal política reformista, embora sempre com poucos recursos empregados em sua manutenção.

 

Créditos: Um passeio pela história natural (os jardins botânicos do Império Português)
Moacir Rodrigo de Castro Maia – Doutorando em História Social (UFRJ)

 

[RodUn]